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domingo, 9 de setembro de 2007

Você Pensa Que Pensar É Fácil?

Várias coisas que aconteceram nessas duas últimas semanas me fizeram pensar nas sutilezas da arte de pensar e, sendo esse um local para reflexões, achei que seria interessante falar um pouco das idéias que encontrei e das conclusões a que cheguei.

Faz parte de ser humano o dom de pensar. Todos nós estamos pensando a todo o momento. Pensamos no que temos para fazer, no que já fizemos, no que vemos, nas memórias que a visão nos desperta... Mas existe uma forma de pensar que nem todo ser humano exercita: o pensar criticamente. Apesar disso, apenas o pensamento crítico pode libertar o ser humano da prisão da mesmice.

O pensamento crítico surge quando questionamos o primeiro pensamento espontâneo. É quando o pensamento se dobra sobre si mesmo, checando sua própria validade, que a verdade começa a surgir. Quando questionamos, deixamos de ser imitadores de idéias e repetidores de citações para nos tornarmos donos de nossos destinos e formadores de opinião. É a liberdade plena que só pode ser alcançada quando surge a vontade genuína de se fazer as perguntas certas.

O que me espanta é como esse pensamento crítico é a exceção e não a regra. Para isso só consigo encontrar duas explicações: comodismo ou medo.

O comodismo é fácil de entender. É tão mais fácil ser apenas mais um copiando o que todo mundo faz e seguir a maré sem tentar outras rotas que as pessoas simplesmente se recostam e deixam a corrente levá-las.

O medo, que às vezes se confunde com o comodismo, é um pouco mais difícil de se compreender. É o medo de questionar o comportamento da turma e, por causa disso, ser banido. É o medo de enlouquecer quando o questionamento mostra que coisas que pareciam tão certas, tão sólidas e que serviam de base para a existência se desfazem mais rápido que castelos de areia frente a certas perguntas. Exagero? Acho que não. Se duvidar (e tiver coragem) pense um pouco acerca das perguntas abaixo:


  • Se existe um salário mínimo para garantir que a população tenha um padrão de vida minimamente (em teoria) digno, porque não existe um salário máximo que impeça que a renda se distribua de maneira tão desigual?
  • Se, quando atraso o pagamento de uma conta, o banco me cobra juros que aumentam o valor a ser pago, porque, ao pagar uma conta antes de seu vencimento, não posso cobrar juros ao banco, reduzindo o valor a ser pago?
  • Tostines é fresquinho porque vende mais ou vende mais porque é fresquinho?


Eu, questionar essas verdades universais que o mundo reproduz a tantos e tantos anos? Tá louco! Melhor ficar quietinho na minha concha assistindo TV.
E o medo nos impede de seguir em frente. Triste, mas acabamos prisioneiros numa cela sem paredes e a céu aberto, sem provar verdadeiramente da liberdade que nos cerca.

Por isso, recomendo a você que questione e coloque os miolos para malhar. Se enlouquecermos, que seja na liberdade plena, onde nenhuma idéia vive se não tiver uma boa justificativa para isso.

domingo, 19 de agosto de 2007

E o que mudou?

Tinha algumas idéias sobre alguns assuntos para escrever, mas me deparei com esse texto e decidi compartilhar.

Da série: "Quero escrever sobre qualquer tema, sim. E daí?"

Talvez isso tenha acontecido com alguma das raras almas que visitam essa adega. Isso de querer escrever, mas não ter idéia sobre o quê. Não? Então eu devo ser mais louco do que penso. Acredito que vocês iriam fazer a mesma coisa com tantas vozes em sua cabeça, tantas personalidades ansiosas por serem interpretadas, escritas, vivenciadas.

A primeira coisa que vejo é o calendário. Hoje é dia dezesseis de agosto. Tudo bem que é mês do cachorro louco ou, para os que acreditam na lenda do número 23, é mês oito que significa dois elevado ao cubo, ou seja, 2³, mas ainda assim é um mês notável. Agosto de momentos históricos que chocaram as pessoas e as marcaram para sempre a ferro em brasa. Não, não falarei da Rosa de Hiroshima (Peguei o termo emprestado, ok, Vinícius?), mas sim de um momento da história moderna brasileira.

(Voz em off de Christopher Lee)

Ano de 1992...


"Eu conclamo a população a sair de casa vestida em verde e amarelo em protesto contra as intenções golpistas de determinados setores políticos e empresariais interessados em apear-me do poder". (Fernando Collor de Mello)

Muitas pessoas saíram às ruas, mas não de verde e amarelo. Foram de preto mesmo. Aquela multidão de jovens capitaneada pela UNE vociferando palavras de ordem, jorrando ao léu uma frase que, naquele instante, virou uma onomatopéia nacional: FORA COLLOR! FORA COLLOR!

Depois disso, Collor sofreu o impeachment (como eu falei quando era mais novo, impeachmado. Gosto muito de neologismos).

Hoje em dia, mais instruído e pé no chão, pergunto-me: O que mudou em 15 anos? Nada, absolutamente nada. Assim como no movimento de Diretas, onde a Rede Globo informou que se tratasse apenas da comemoração aos 430 anos da cidade de São Paulo, o movimento do Impeachment, dizem por aí, foi orquestrado pela própria emissora. Sendo isto verdade ou não, foi a última vez que vi um movimento político com a sociedade nas ruas. É até engraçado, pois a mesma Globo o pôs no poder em 1989.

Hoje a UNE é nada menos do que uma empresa que cria cartão de estudante para dar meia-entrada em espetáculos, cinema e afins; embora haja pessoas de boa índole que ainda se importam com movimentos sérios. A sociedade, eu a vejo como um bando de cordeiros pronto para o abate, sem vontade de criar, muito menos de desconstruir (eu disse desconstruir, não destruir). Os políticos... Bem, estes não mudam nem de nome.

O que mudou? Apenas eu. Assim como Saramago, considero que não há nada mais retrógrado do que a esquerda. Pensando melhor, retrógrado é esse desinteresse em mudar o que está errado, não importando que seja para uma situação de direita ou esquerda.

domingo, 22 de julho de 2007

A Perda da Inocência

Você se lembra dos seus primeiros anos de vida? De como tudo era novo e mágico e o mundo parecia um lugar imenso de mistérios intimidadores? Ainda bem que você era acompanhado de dois super-heróis prontos para te ajudar: papai e mamãe.

Lembra de como o quintal ou a rua em frente à sua casa pareciam um mundo de infinitas possibilidades onde amigos reais e imaginários poderiam ser o que quisessem?

Lembra de como as “tias” da escola pareciam imensas e inteligentes, sempre sabendo como resolver aqueles trabalhinhos complicados que te davam para fazer na escola?

Ah, que delícia era ser o desbravador do mundo: encontrar casulos pendurados em árvores perto de casa, ralar o joelho e saber que a super-mamãe está sempre lá para te salvar, rolar na grama e sair cheio de carrapichos pendurados pela roupa, ser o melhor jogador da rua (mesmo que os outros jogadores todos apontem para si dizendo o mesmo)...

Mas aí algo acontece.

É difícil definir quando esse momento chega, mas acaba sendo em algum ponto entre o dia em que você deixa de desenhar o seu próprio nome para efetivamente escrevê-lo e o dia em que você descobre que o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa não existem exatamente na forma de pessoas. De repente o mundo passa a não ser tão grande quanto se imaginava, o que antes era misterioso passa a se tornar conhecido e catalogado e papai e mamãe deixam de ser tão super assim.

Agora você já pode ir até a padaria ou ao mercadinho da vizinhança quando sua mãe pede, os livros que você lê começam a ter mais palavras do que figuras, a tia da escola começa a mostrar a ciência por trás da magia do mundo e você já descobriu um punhado de coisas em que papai e mamãe não são nem de longe tão bons quanto você imaginava.

E a vida continua a acabar com a festa. Ela te força a aprender o que é a decepção, a morte e todo um mundo de eventos e sentimentos longe do colo da mamãe.

E quando você se dá conta, ela já se foi. Aquela inocência dos olhos de criança dá espaço a discussões sobre política, religião, guerras, estudo, trabalho, dinheiro... Bem vindo ao mundo adulto!

Parece um quadro meio apocalíptico, eu sei, mas toda grande mudança é assim, não é? O que a lagarta chama de fim, é apenas o começo para a borboleta.

Por mais que a inocência se vá, se você for esperto o suficiente, vai saber manter o espírito jovem. E essa é que é a grande sacada para a vida adulta: crescer, mas manter uma certa jovialidade, uma certa curiosidade e uma certa visão imaginativa que só uma criança poderia ter, pois só assim você vai conseguir perceber que a vida deixou de ser uma festa de criança para se tornar um baile que pode ser tão divertido quanto a festa, apesar de ter um pouquinho mais de regras.

E, quando você menos espera, se da conta que está agradecido por aquela inocência infantil ter ido embora, porque só assim você consegue escapar de certas armadilhas do baile da vida adulta. Vai ver que é exatamente por isso que crianças não podem entrar nesse baile, né? E, nossa, como ele se torna magicamente maravilhoso quando você descobre certas verdades com as quais só um adulto consegue lidar. Mas o mais interessante é exatamente isso: a magia não acaba, apenas muda de roupagem a cada nova dança, a cada novo ritmo. E como perde aquele que fica se escondendo pelos cantos, sentado longe da pista de dança, apenas praguejando a própria sorte.

Vamos celebrar o fim da inocência e a beleza da vida adulta! Conceda a si mesmo o prazer desta dança!

domingo, 8 de julho de 2007

O Importante é o que Importa

(Ou “Uma Receita Simples a Quatro Mãos”)

Quando eu era mais jovem, eu sonhava com uma paixão de filme de cinema. Daquelas que me colocaria nas nuvens, me faria sentir borboletas no estômago e balançaria meu mundo de uma forma radical e irresistível. Eu queria um amor que fosse quente como um incêndio, consumindo a tudo e não deixando que nada ficasse em seu caminho. Queria que a mulher da minha vida vivesse por mim e que seu estilo se encaixasse como uma luva em meus gostos, desejos e manias. Ela seria uma fada, uma deusa, causando mudança completa na minha vida ao transformá-la num completo paraíso.

Bem, desde esses meus primeiros ensaios na vida amorosa eu percebi duas coisas.

A primeira é que ninguém recebia ou pagava contas de água, luz ou telefone e que os cartões de crédito não tinham limite nos romances que me inspiravam. Nenhuma mocinha era vista em cena, preocupada com o orçamento do mês. Nenhum mocinho parava para pensar antes de comprar os presentes mais caros para a sua amada.

A segunda coisa que percebi foi que menino que brinca com fogo, além de fazer xixi na cama, pode se queimar bastante. Agora, imagina um menino que brinque com o incêndio de uma paixão... Dói. E pra caramba.

Definitivamente “romance de cinema” e “paixão incendiária” são coisas que dificilmente funcionam na vida real. Acaba sendo como aquelas receitas elaboradas dos chefes de cozinha franceses: super elaboradas e obscenamente caras, mas em porções minúsculas que servem apenas para você sentir um gostinho e jamais matariam a fome de ninguém.

Só mesmo a experiência de alguns anos para ensinar que a chama de uma pequena vela ou tocha é suficiente para espantar a escuridão e que o calor humano de um abraço sincero mantém o frio distante. Quem precisa de um incêndio?

Só mesmo a experiência de alguns anos para ensinar que um romance de verdade é feito na simplicidade das pequenas coisas e que elas é que são o verdadeiro tempero de qualquer relação. Quem precisa de romance de cinema?

A beleza do amor está em fazer as contas juntos e explodir em felicidade ao descobrir que sobrou o suficiente para ir ao cinema e ainda comprar a pipoca. A felicidade está em descobrir que ela comprou atum, mesmo que ela não seja muito fã, só porque sabe que você gosta. A delícia da relação é ele levar um livro no seu trabalho, para te emprestar, só porque ouviu você comentando sobre ele.

Bilhetinhos apaixonados, beijos roubados, telefonemas no meio da tarde, piadas por mensagem de celular, atividades a quatro mãos, aceitação, carinho, paciência... Esse é o tempero de um amor de verdade. E é esse amor que agora, não tão jovem, eu tanto queria e que, graças a essa jóia rara que divide os domingos aqui comigo, eu tenho.

Sim, é o que temos. E não importa o quanto olhamos pra trás e dizemos: como fui louco de aceitar aquela situação em minha vida? Como pude ter um relacionamento como aquele? Simples, foi fruto de uma escolha e de uma necessidade. Escolha porque o livre-arbítrio está aí para todos e necessidade pois como poderemos distinguir o que realmente importa, daquilo que não, se não tivermos experiências? NÃO HÁ COMO.

Consideramos justas toda forma de amor, como canta Lulu. A paixão avassaladora que queima e deixa marcas profundas que demoram a cicatrizar, a amizade que quase virou namoro até que pudéssemos perceber que amigos são amigos, e beijo na boca é um negócio bem a parte disso (far far away), aquele outro desejo escondido que não foi revelado nem ao travesseiro e vivido apenas na imaginação...

No fim das contas, tudo que vivenciamos antes de chegar aqui nos fez melhores um para o outro. Erros para que não se repitam, acertos para dar o devido e merecido gostinho de vitória. E depois de tanta solidão, tantas escolhas, e caminhar contando passos com a solidão: um grande amor, aconchegante, morninho, cheio de cumplicidade e carinho. Não somos iguais, vejam bem. Eu amo dançar e ele joga RPG (!!!). E isso não é problema, são apenas novos mundos e experiências que podemos ofertar um ao outro.

E que possamos não esquecer, o importante é o que importa. Saber cozinhar também ajuda muito. Isso vale tanto para as moças, quanto para os rapazes.

Beijocas e muito amor a todos nós, sempre!

Clarissa e Marcos Bahia.

domingo, 1 de julho de 2007

Tempos Modernos

Quando eu era mais jovem, eu olhava para o futuro com olhos brilhantes cheios de maravilhamento. Sei que muito disso se deve à minha condição na época. Eu ainda era uma criança descobrindo o mundo e meus amigos mais próximos eram de famílias de condição financeira melhor que a minha, podendo então, comprar brinquedos mais caros e ter coisas em casa que variavam do luxo até o inatingível para mim. Fora isso, confesso que desde aquela idade a tecnologia (e a ficção científica) já prendia em muito a minha atenção. A série original de Jornada nas Estrelas me fascinava, os primeiros computadores pareciam coisas maravilhosas trazidas de outro mundo e a primeira vez que assisti Mestre Yoda tirar o cruzador estelar de Luke de dentro do Pântano, fiquei reprisando a cena na minha cabeça por horas.

Mas o tempo vai passando e nós vamos crescendo. Não há como fugir disso.

Foi em 92 que meu vocabulário mudou um pouco e meu futuro ficou abalado em suas bases. Nesse ano ECO deixou de ser apenas a reverberação do som para se tornar também uma reunião de pessoas que queriam salvar o mundo para que eu pudesse viver os sonhos que nutria na infância. Mas a situação estava feia. Buracos na camada de ozônio aqui (não dá para remendar?), superaquecimento ali (não dá para colocar um ventilador?), desmatamento acolá (eu sei plantar feijão no algodão, isso ajuda?)... Entretanto, mesmo com o nosso mundo agonizando em sua cama celestial de hospital, ainda havia uma luz de esperança na forma de guerreiros, paladinos da justiça que estavam dispostos a investir em pequenos barcos contra imensos barcos baleeiros para garantir que nosso planeta pudesse se recuperar. Aquela cena me tocou e acreditei que meu futuro seria salvo por aquelas pessoas que vestiam o verde da esperança e o branco da paz.

Passaram-se mais alguns anos nos quais o meu gosto pelas coisas tecnológicas apenas cresceu. Principalmente porque eu via essa tecnologia sendo cada vez mais usada no dia-a-dia para resolver as “doenças” do nosso planeta. Filtros em chaminés e veículos diminuíam a emissão de poluentes. Avanços tecnológicos permitiram que o CFC perdesse força em sua escavação na camada de ozônio. Até mesmo no reflorestamento eu descobri que aquelas invenções maravilhosas estavam ajudando, sem nem precisar doar o meu pé de feijão! Era o futuro que se descortinava na minha frente! Eu sabia que logo, logo a USS Enterprise apareceria numa matéria do Fantástico ou do Globo Repórter.

Mas não foi isso que vi.

O que eu descobri foi que a tecnologia estava matando tanto ou até mais do que curando e ajudando. Pessoas inventavam todo tipo de desculpa ao redor do mundo para pegar uma arma e matar quem estivesse por perto. Aos poucos fui descobrindo que nosso planeta, já tão carente de cuidados, estava sendo banhado no sangue de seus habitantes. E isso não era novidade! “Meu Deus,” me perguntei, “onde está o ‘viemos em paz’ ou o ‘não se entregue ao lado negro da força’?”

A resposta que tive foi gás mortal sendo liberado em metrôs, homens usando seus corpos como suporte para bombas e, mais recentemente, aviões cheios de passageiros sendo lançados contra prédios. Parecia que, como a Chalenger vários anos antes, meu futuro era um foguete que não chegaria a seu destino. Foi quando descobri que meu foguete talvez nem chegasse a decolar, pois um homem precisava do combustível para seus mísseis. Ele misturava vingança, liberdade, guerra, democracia, armas de destruição em massa e favores devidos à indústria bélica de seu país no mesmo discurso como se esses termos sempre tivessem sido irmãos. E, sob suas ordens, seres humanos de diferentes nacionalidades sangraram e morreram apenas para que nosso planeta derramasse um pouco mais de seu sangue negro na “direção correta”.

Lutar contra a força daquele homem era loucura, mas podíamos, ao menos, direcioná-la para coisas construtivas. Pelo menos foi isso que outros homens pensaram ao se reunir no Japão para assinar papéis que dariam mais chances para nosso planeta se recuperar dos danos causados a ele. O homem disse que não assinaria nada. “E ai de quem tentar me forçar!” foi o que ficou subentendido quando ele foi embora.

Essa semana, ouvi notícias de que o mar está subindo por conta do aquecimento global. Em cem anos o mar subirá mais um metro causando enchentes e alterações geo-climáticas até para aqueles que vivem longe do litoral. Esses mesmos cem anos são o tempo que levará para que o processo de desertificação do Brasil destrua todo o território do país. Então esse é o futuro que me espera? Entre o deserto escaldante a as águas assassinas?

Parei e pensei por muito tempo. Será que não aprendemos nada de 92 até hoje? Pensei mais e vi que a pergunta era mais profunda. Será que não aprendemos nada nesses 3,5 milhões de anos nos quais o homem vive na Terra? Acho que não. Ser humano significaria ser aquele por trás do taser, do sabre de luz ou dos canhões de plasma. Ser o usuário e não a ferramenta. Teríamos que pensar, ponderar, criticar e decidir com sabedoria antes de tomar ações.

Não é isso que fazemos.

No fim eu acho que somos como as máquinas que criamos, repetindo a mesma tarefa dia após dia, sem muita imaginação ou variação. Matamos uns aos outros porque é o que sempre fizemos. Continuamos destruindo o planeta porque é o que sempre fizemos. E responsabilizamos nossos “vizinhos” porque é o que sempre fizemos. E enquanto não assumirmos que a culpa é nossa e pararmos de perder tempos com brigas sem sentido e com tantas outras besteiras, enquanto não superarmos esse estado de “máquina de carne”, jamais chegaremos realmente ao futuro.

domingo, 17 de junho de 2007

Eu e Téo

Quando me perguntam qual a minha religião, sempre prefiro dizer que não possuo nenhuma e explicar que sou simpático a várias práticas e idéias, algumas delas originadas de vertentes religiosas conhecidas, outras, pequenas porções de sabedoria coletadas aqui e ali.

Minha experiência por contato direto com instituições religiosas é bem pequena. Já fui a missas na Igreja Católica e já fui várias vezes aos Centros Espírita aos quais minha mãe foi vinculada. Mas essa pouca experiência foi suficiente para que eu chegasse a uma conclusão: instituições religiosas não funcionam para mim. Elas acabam sendo muito hierárquicas e restritivas demais para que eu consiga aceitá-las dentro da idéia que tenho de religião. Desde que cheguei a essa conclusão nunca mais senti nem remota vontade de participar de qualquer instituição religiosa, mais por não ter encontrado nenhuma que contradissesse a imagem que tenho delas do que por birra.

Prefiro viver a minha vida pautado numa lei simples que resumo em “fazer o bem”. Eu tento, a cada dia, viver sob essa lei. E não porque me seja uma lei imposta, mas porque me faz bem segui-la e me faz bem ver os frutos maravilhosos que ela gera ao meu redor. Vale dizer que estou longe de ser um “bom samaritano” ou qualquer adjetivo nesse sentido. Tenho diversas falhas e limitações como qualquer ser humano desse mundo, mas tento sempre viver pelo meu melhor por mim e para os que estão ao meu redor. Tento pôr em prática e cativar por exemplo.

Acho que por isso me incomoda um pouco quando escuto alguém falar fervorosamente de sua religião (principalmente se mencionar a instituição que freqüenta). Tento sempre manter o respeito pelas idéias dos outros, mas prefiro conhecer melhor aquela pessoa que fala antes de dar ouvidos realmente ao que ela fala. Acabo sempre me recordando dos tempos de escola em que alguns alunos que conheci decoravam às vezes capítulos inteiros de livros de Física ou Química e, ainda assim, se mostravam incapazes de resolver problemas simples dessas matérias. Fico me perguntando o quanto daquilo que aquela pessoa diz ela coloca realmente em prática na sua vida. Penso também (e muito!) se ela segue as restrições impostas por sua religião/instituição (quando estas restrições existem) porque aquilo lhe é natural ou simplesmente porque elas lhe são impostas. Conheço pessoas que vão às celebrações de sua fé simplesmente porque se sentem obrigadas e não por serem movidas por uma fé verdadeira. E algumas dessas pessoas são o exemplo mais marcante de alunos que sabem o livro todo de cabeça, mas que não aprenderam realmente a matéria. Algumas delas até mesmo, e cito isso como um dos motivos mais fortes de me manter distante, fazem parte da hierarquia de suas instituições religiosas.

Mas é com a mesma admiração que tinha pelos alunos que diziam “É, esse problema não sei resolver” e iam estudar mais ou pedir ajuda ao professor, que lembro de um rapaz que fazia parte do mesmo Centro que a minha mãe fazia naquela época. Uma prática difundida dentre os médiuns daquele Centro era a não ingestão de carne. Quanto a isso aquele jovem disse “Acho louvável que vocês consigam, mas eu ainda não consigo abrir mão de comer carne”. Admirei a coragem daquele rapaz de assumir sua limitação na frente dos outros médiuns e achei ainda mais maravilhoso que não houvesse nenhum tipo de castigo ou restrição de atividades àquele rapaz. Ele continuou desempenhando as mesmas funções de qualquer outro médium, comendo carne ou não. Afinal, posso até estar errado, mas acho que a vontade genuína dele de trabalhar e vibrar energeticamente junto com grupo deve ser visto como algo muito mais importante que sua dieta. Pode parecer uma bobeira, mas esse respeito e aceitação da parte do grupo é o tipo de coisa que me faz recobrar a fé nas pessoas.

Eu apenas gostaria de ter mais contato com pessoas assim do que com os religiosos que parecem que muito sabem mas que pouco ou nada do que sabem colocam em prática...

Marcos Bahia

domingo, 3 de junho de 2007

Anos Incríveis

Ou Reflexões em Uma Mão de Pôquer

Não sei se todos vão lembrar de uma série chamada “Anos Incríveis”

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Essa série, que fez sucesso nos anos 90 aqui no Brasil, retrata a adolescência de Kevin Arnold durante o início dos anos 70. É uma série de um extremo realismo e de uma delicadeza e beleza intensas.
Essa série marcou a minha infância, mas eu nunca havia conseguido assistir todos os 115 episódios que a compõem. Nunca até semana passada quando, maravilhado, fechei esse ciclo que havia sido deixado aberto por tanto tempo.
E o que aconteceu foi que o episódio 111, intitulado de “Pôquer”, me fez pensar em várias coisas, incluindo esse espaço, do qual agora começo a fazer parte.

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Esse episódio em particular retrata uma das típicas noites de pôquer de Kevin Arnold, já com dezessete anos, e seus amigos do segundo grau (não consigo me habituar a falar ensino médio...). Da esquerda para a direita na imagem acima eles são Jeff Billings (que veio transferido de outra cidade), Kevin Arnold, Chuck Coleman (Kevin o conheceu no Segundo grau), Randy Mitchell (Kevin também o conheceu no Segundo grau) e Paul Pfeiffer (que é amigo de Kevin desde os primeiros anos da infância).
Conforme esse episódio vai se desenrolando, os conflitos começam a surgir. Paul, que sempre foi “alérgico a tudo”, começa a se mostrar um grande chato, sempre preocupado demais com sua saúde, entrando em conflito direto com os outros, incluindo Kevin, por causa disso. Chuck revela que sua namorada suspeita que está grávida. Randy é o “grande perdedor” das noites de poquer e é tão ruim em Matemática que talvez repita de ano e não se forme. Já Jeff está roubando no jogo, como Kevin descobre no meio do episódio.
A coisa toda esquenta como uma panela de pressão pronta a explodir, culminando com a última mão da noite. No último jogo daquela noite Kevin e seus amigos travam uma guerra de nervos, apostando alto (o “pingo” para participar da rodada é de um dólar inteiro, meu amigo!), cada um disposto a sair vencedor, provando sua superioridade frente aos outros. A voz do Kevin adulto, o narrador da série, explica: “De repente não éramos mais meninos jogando um jogo de gente grande. Éramos homens, homens em guerra. Defendendo nosso terreno, lutando por posições. Era a hora de não se ter pena, não se fazer prisioneiros. As apostas estavam feitas”
Com as apostas encerradas, as mãos são reveladas. Kevin tem um par de valetes. Chuck tem uma quase-sequência, sendo derrotado Kevin. Paul mostra dois pares, um de valetes e um de noves, derrotando Kevin. É quando Randy revela sua mão: uma trinca de setes. Tudo dependia da mão de Jeff. Ou ele ou Randy seria o vencedor daquela noite. Jeff parece nervoso. Ele olha suas cartas, passa a mão no nariz e então diz: “Eu saio. Não tenho nada...”
E Randy ganhou a bolada de quase sete dólares! “A beira da desilusão e do desespero, Randy Mitchell, o eterno perdedor, finalmente ganhou uma vez.”
É quando tudo começa a clarear para aquele quinteto de amigos. O telefone toca e é Alice, a namorada de Chuck dizendo que as suspeitas não se confirmaram; ela não estava grávida. Randy se despede dizendo que vai “malhar nos livros”. Quando todos partem, Kevin vai arrumar a mesa e fica curioso quanto às cartas de Jeff. O rapaz havia deixado seu jogo sobre a mesa com as cartas viradas para baixo. Kevin começa a desvirá-las e qual não é sua surpresa ao ver o seguinte:

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Uma quadra de reis. Jeff poderia ter ganho aquele jogo, mas preferiu deixar Randy sair vitorioso.
Esse foi o momento em que eu fui obrigado a pausar o episódio. Minha tia me chamou, pois o almoço estava pronto.
Fui me servir pensando nas amizades que fiz na minha infância e adolescência. Em como meus amigos me marcaram e ajudaram a fazer de mim a pessoa que sou hoje. Lembro do Bruno, aquele que foi o meu Paul Pfeiffer, emocionado com a redação que eu fiz na quarta série homenageando-o, me fazendo descobrir a habilidade que eu tinha com a escrita. Lembrei de professores que me impulsionaram e estimularam como os vários que fizeram o mesmo por Kevin ao longo da série. Me peguei pensando que em algumas ocasiões eu havia feito como Jeff e deixado outros ganharem só para ver o brilho da felicidade nos olhos de um amigo. Em outras ocasiões, tenho quase certeza que fizeram o mesmo por mim.
Foi quando meus pensamentos me levaram até esse blog que você agora está visitando. Percebi que a ligação que eu formei com várias pessoas ao longo da minha vida era a mesma que eu agora formava com os outros contribuintes e leitores deste blog. Me dei conta que estaríamos juntos para promover a troca de idéias, discuti-las e até brigar se necessário (não como adolescentes com hormônios em ebulição, mas como amigos adultos e maduros). E, como bons amigos, estaríamos juntos para promover o crescimento uns dos outros, acrescentar um pouco de nós mesmos nos outros e ajudá-los a serem felizes. Por conta disso, ao agradecer a Papai do Céu pela minha “merendinha” do dia, também agradeci por estar sendo agraciado com vocês, aqueles que já considero meus novos amigos. Agradeci por estar começando o que eu espero que sejam Anos Incríveis de parceria junto a vocês.
Eu ia parar por aqui, mas, ah, vocês devem estar curiosos quanto ao fim do episódio, não é?
Bem, o que acontece é que Kevin desvira a última carta e tem a revelação:

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Sim, cinco reis. Jeff estava roubando novamente. Rindo gostosamente me lembrei que meninos adolescentes são sempre meninos adolescentes.
É quando Paul retorna para buscar o casaco e Kevin se dá conta, depois de todas as rusgas que os dois tiveram durante aquela noite, que a “facilidade não declarada de relacionamento” que eles tinham durante a infância estava acabando. Quando Paul está saindo, Kevin o chama, pronto para se desculpar por tudo o que aconteceu. Mas não precisa dizer nada. Como só os grandes amigos conseguem fazer, Paul lê os sentimentos de Kevin em seu olhar. Ele então sorri e agradece, saindo em seguida.
Bruno se despediu de mim na oitava série. Nossa amizade nunca mais foi a mesma desde então. Hoje nem mesmo mantemos contato. Mas há uma parte de mim que deve sua existência a Bruno, assim como sei que o mesmo acontece com ele. E essas marcas deixadas pelos nossos amigos são a porção deles que carregamos para toda a vida do lado esquerdo do peito, seja lá mais quantas noites de pôquer ainda tivermos pela frente.

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Um grande abraço para todos vocês, meus amigos, que por aqui passarem.